Objeto ativo

Willys de Castro

A supressão da fase material dentro do artístico ronda a pretensão idealística, utópica, de criar a pura obra de arte sem vestígios do objeto. Pois sempre se antevê, da condição de coisa, a forma e a matéria do suporte intercambiando propriedades com a idéia formadora da primeira.

A reversibilidade fatal, entrópica, da fase elaborada de obra para a fase material bruta, equaciona a instabilidade perene em que se encontra toda obra de arte. São requisitos técnicos de execução, duradoura e límpida da idéia geradora, por exemplo, que garantem o estado artístico da obra e, cada vez mais, impedem o seu retorno à primitiva brutalidade da matéria.

O esforço, a fim de sublimar o objeto, de material a artístico, tem o principal desígnio de encontrar o ponto em que as propriedades de ambos entram em concerto, trancendendo-o de opacidade da condição de coisa para a transparência da apreensão da ordem fenomenológica , numa somatória de contrários dos conceitos e possibilidades do material e da obra de arte, não menosprezando as finalidades da passividade cotidiana do primeiro e da habitual atividade da segunda.

Assim, tudo o que é nela incluso, é o resultado de uma integração total do fato vivenciado com o material inicial, e depois, do evento registrado com a obra conseguida. A nova obra de arte é tanto mais criativa e viva quanto mais o suporte de suas idéias entrar no conjunto como partes delas, numa interdependência e coerência extremas, a ponto de não se poder definir perfeitamente, pela análise, os seus limites, sob a pena de perder-se parcialmente a extensão de cada um.

A nova obra não é estanque, ela transborda os seus significados para o espaço circundante estabelecendo tópicamente novas relações e concordâncias. Pois, sem recorrer às referências exteriores, ela coleta de si mesmo os dados necessários à sua comunicação, retirando-os parte do real e parte do virtual, tal obra, realizada com o espaço e seu acontecimento, ao penetrar no mundo, perturba-o e, pelo seu surgimento, deflagra uma torrente de fenômenos perceptivos e significantes, cheios de novas relações, até então, inéditas nesse mesmo espaço. Esse novo objeto, investido de tal atividade, torna-se um inteiro caracterizado pela sua autonomia e unicidade, e por isso, altamente diferenciado das obras convencionais. Contendo eventos dentro de seu próprio tempo - iniciados, transcorridos, findados, reiniciados, etc. - e ali demonstrados clara, fluente e indefinidamente, ele inaugura-se no mundo como um instrumento de contar a si próprio. A este ponto íntegro, emissor de formas auto-expressivas significantes, colocado dentro do mundo sensível, denominamos, pois, de objeto ativo.

Junho de 1960

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